Essa mania de sempre me alimentar dos restos de ontem.

paredes pintadas com tempo,
portas, rangindo,
abrem e fecham o vento
uma janela escancara sem volta,
ilumina uma gaveta torta:
as mesmas trocas de sempre,
e uma caixa de jóias sem ocisão especial
envelhece, paciente
junto às lembranças de papel
que dormem em estantes
tão tristes, tão relutantes
até que se finde o dia, enfim
se põe o sol, se põe a vida
ela se põe também
e a lua vem, vestida de marfim
clareia um tardio gato risonho,
uma perda,
um deitar,
um sonho.

perdoava,
com uma inocência que lhe enchia os olhos
depois virava,
disfarçava,
e chorava,
escondido.

Sempre muito ao mar ou sempre muito à terra. Porque? Perderam-se da concepção do equilíbrio?

A contemplar
singularidades, repetidamente
a esperar o dia passar
sem motivo aparente

à margem, o mar,
o horizonte
e o divagar
devagar,
a procurar
hesitante, excitante
ao encontrar
talvez, apenas
talvez nunca mais.

Naquela noite fazia companhia ao fogo, alimentava os anseios de sua ascendência gananciosa com minhas faltas frustradas, inabaláveis em nossas futilidades oportunas.

Vivíamos de nossas ilusões mordazes, e pouco a pouco nada mais restava além de um quarto vazio e uma xícara de café frio sobre a mesa.

A partir do início de sua existência, estava terrivelmente predestinado ao fim, mesmo que tão distante, mesmo que tão impossível.

É sempre muito tarde quando se entende, é assim que funciona.