Sim, vesti-me de sua iminência; e quando dois, feitos um, trocou por substantivos os porquês que me despiu. Fechamos a porta. Nós: horas turvas correndo sem rastro.

E quando arriscava quebrar linhas os versos transbordavam em protesto.

Me precipitou com audácia por corredores fatuais e sufocou com as verdades. Tanto que julguei nem arriscar porquês. Qual a nobreza? Antes se entregasse ao que esperava ouvir: qual a verdade que importa senão a que se acredita?

A impaciência atrevia-se em fragmentos: os trilhos eram consumidos sem fome: o dia se guardava escuro na última estação, longínquo.

O desespero foi quem recebeu fiel as inúmeras cartas que nunca acabei.

O vazio recente da garrafa refletia o seu. É indiferente a lucidez se o julgamento de outros olhos não te vêem entre a escuridão.

não era confiável:
me surpreendeu de súbito
tão vulnerável
queria levar me consigo,
fútil, resisti,
mas já era tarde
já tinha me roubado tudo.

seus cabelos voam longe
e se misturam à escuridão,
o pranto que escorre a janela
harmoniza baixinho
os bits com ruídos
imitando discos velhos
e cadenciam pra-lás e pra-cás
que vão cruzando as sombras
em passos singelos.
direções aleatórias, movimentos sutis,
seu estado de estar
hesita leve entre-braços meu
e dança ronceiro,
chega bem perto,
ameaça me a razão
com a simples iminência
da sua pele à minha:
me perturba, sua presença!
mas em que tempos
quis eu ter a alma tranquila?
de desventuras em cúmplice,
do apraz do excêntrico
e a imagem do teu olhar
que alvitra em segredo
o escarlate que emoldura
tuas palavras em sussurros,
ouso-lhe, então, um sorriso
e expondo me, mudo,
declaro-lhe desejos
e me arrisco às suas danças
pelo egoísmo, talvez, persista
pelo meu e o teu
e por quão em vão seria opor-se
ao encarcerar pelo momento
que a circunda do seu corpo
me contenha junto a si
e a canção dos seus discursos
me seduza em voz travessa.

As letras desprendem das teclas e fazem formações melancólicas.
Palavras cheias de ressentimento saem pelos olhos, escorrem pelo rosto e mancham a mesa.
Um grito com os dedos apertando o cursor.
Antes fotografias é que fossem lembranças.
Horas vagam às cegas, a percussão dos pés não acelera o tempo.
E ninguém vê.
O verdadeiro significado do desespero é a falta de esperança.

vãos na estante

de fotos rasgadas,
chapéus esquecidos
e presentes com destino confuso.
de acessórios de fingir poses,
shows amadores
e lembranças sem dono
guardadas em caixas.
de cartas não lidas,
guarda-trecos vazios
e pequenos detalhes perdidos
jogados ao chão.
de papeis queimados,
de convites sem nome,
de planos incumpridos,
e estantes com vãos
enfeitados com abandono.